Como a vida acadêmica agravou meu borderline.




Este é um blog feito para registrar o desenvolvimento de um videogame sobre depressão, objetivo do meu doutorado em Ciência da Informação. Mas por quê diabos um blog? Quem usa blog hoje em dia? Aliás, quem lê blogs hoje em dia? Isso não me importa. Vou usar como um espaço para discutir temas sobre saúde mental, Especialmente quando são abordados pelos nossos queridos joguinhos.

Mas hoje não irei falar especificamente do jogo ou de jogos, mas sim de como a vida acadêmica é prejudicial para pessoas com pré disposições à transtornos depressivos. E como me prejudicou. Fui diagnosticado com Transtorno de Personalidade Borderline, que é algo muito chato e severo em alguns casos. Especialmente no que diz respeito à relacionamentos. Qualquer tipo. Estraguei três relacionamentos por puro descontrole emocional, e na época, falta de tratamento. 

Manter as emoções sobre controle é uma luta interna, diária e constante. Em um momento estou feliz e animado, ou seja, a mania. No outro estamos totalmente mal e pensando muitas merdas, que seria a depressão. Isso em um intervalo de 2-3 horas. É terrível. Só quem tem sabe o que é sentir (ou não sentir) isso.

Mas o que a vida acadêmica tem com isso tudo? No meu caso, praticamente tudo. Embora estude um tema que amo, os videogames, constantemente me sinto uma fraude ali dentro do meio acadêmico. Não sou um cara tão inteligente assim, apenas curioso e as vezes até "malandro", procurando atalhos e objetividade para resolver coisas. Diariamente me deparo com pessoas muito mais talentosas e capazes que eu, o que constantemente me faz questionar se realmente essa vida foi feita para mim. 

Obviamente que desenvolvi um pensamento crítico e análitico mais apurado naquele ambiente e também na vida. Porém, sendo honesto, não sei se valeu toda a saúde mental que venho desperdiçado. Ultimamente sinto que estou sozinho, pesquisando um tema que quase ninguém discute, sem muita ajuda e às portas da qualificação, um rito de passagem temido por muitos. Confesso de verdade que minha vontade atual é largar tudo pro alto e me dedicar inteiramente à carreira de game designer, mas... estou ligado como bolsista e preciso ir até o fim.

Além disso, sou orgulhoso e quero terminar o que comecei, já que lutei tanto e batalhei horrores para chegar até aqui. Mas sendo honesto, atualmente venho repensado se meu orgulho vale tanto. Constantemente tenho crises de ansiedade e depressão. Minha visão sobre o mundo é totalmente negativa e sequer consigo sentir qualquer coisa. Crio cenários horríveis envolvendo minha qualificação, na qual serei humilhado por toda a banca, devido à inconsistências e minha incapacide argumentativa. Tive que dobrar minha dose de medicamentos para a bipolaridade, além de estar quase diariamente tomando Rivotril. Semana que vem irei procurar ajuda terapêutica, para ver se consigo reverter esse quadro.

O doutorado se tornou uma obrigação e ao mesmo tempo um martírio. Tento pensar positivamente, que porra, irei discutir um assunto que amo, criar um jogo para ajudar pessoas que passam pela mesma coisa que eu, mas ainda assim, é muito difícil organizar pensamentos de forma coerente. Apenas me sinto isolado cada vez mais, no meu quarto, com meus gatos e meus jogos.

Algumas pessoas tentam ajudar, e reconheço isso, o que às vezes me faz sentir muito pior, pois não quero que se preocupem comigo. Alguns outros acham que é frescura, ou necessidade de atenção. Infelizmente não é. Gostaria muito mesmo que fosse. Pelo menos eu conseguiria "sair" dessa encenação após escrever esse texto. Mas não irei.

Eu no quarto.


4 comentários:

  1. Cara. Foi uma descoberta maior ler esse texto. Percebo o qto a situação é complexa e limítrofe no tocante ao quesito controle.
    Sabe
    ... Nessas horas é difícil saber o que dizer. Mas qdo falo q tu pode aparecer e trocar uma ideia comigo não falo por educação. Falo por saber como as coisas podem ser punk. Enfim tô por aí. Vc não incomodará em hipótese alguma, fique a vontade para trocar uma ideia se quiser e qdo quiser.
    Aliás, te digo de coracao, a qualificação não sera essa "execução" que vc às vezes pensa. Será tranquila. Como vc disse é um rito mas não precisa ser um martírio. Abração.

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  2. Essas coisas são mais complicadas do que imaginamos, pois o redor não está preparado para lidar com temáticas que por vezes fogem do padrão. Antes de comentar mais afundo, gostaria de lhe contar um pouco da minha história.

    Quando tinha 15 anos, eu comecei a ter frequentes dores crônicas no estomago. Junto a essas dores, estava tendo episódios complicados na escola. Ficava muito irritado, discutia com professores e colegas. Num episódio mais severo, fui levado a um grande gastroenterologista que fez um exame parcial e disse que poderia estar com ulcera. Fui levado ao hospital para fazer exames e foi constatado quatro hemorragias estomacais devido a stress.
    Eu tinha 15 anos, com dores absurdas e apesar de ser muito introvertido, comecei a ter crises de raiva no meio da sala de aula. Contraturas absurdas e diversos problemas.

    Apesar do apoio de amigos e professores, fui obrigado a deixar a escola onde era bolsista, para fazer tratamento em casa. A escola já tinha perdido dois alunos por motivos de saúde em 5 anos, temiam que eu seria o próximo.

    Durante anos, tive as piores experiências possíveis. Dificuldades de aprendizado. Crises, convulsões, perda de sentidos e até efeitos colaterais bizarros devido a medicamentos pesados. Quando marquei com a amigos para passarmos o dia na Uruguaiana comprando jogos piratas, cai na plataforma do metro me debatendo. Meus amigos chamaram socorro e fui levado para uma "sala de maquinas" do metro (não lembro o que era, não lembro de muita coisa) Meus pais vieram e foi reportado o ocorrido pro psiquiatra, que queria que fosse internado quanto antes.

    Meus pais foram contra. Disseram que o amor em família era essencial para uma recuperação. Até hoje, me sinto em divida com eles por isso.

    Passaram os anos, fiz um supletivo a noite. E comecei a apresentar traços de melhora. o IPUB (UFRJ) já tinha me dado uma alta forçada por que eu havia passado dos 18 anos, dai teria de dar entrada na clinica de adultos. Preferi procurar ajuda no particular.

    Anos passaram e com muita ajuda de amigos, família e bons especialistas na área, entrei numa universidade publica. Mas as velhas crises continuaram. Depois de uam das varias tentativas de suicídio, onde na ocasião sem saber, quebrei parte do mobiliário da casa e fiquei com sequelas, comecei a chorar muito pois pra mim parecia um pesadelo que não acabava. Nenhuma conquista parecia ser de fato uma conquista. O humor oscilava da forma mais desgraçada possível.

    Mas não importava o que acontecia, todos diziam que eu era forte. Que mesmo estando mal contavam comigo. Que eu possuía caráter e integridade.

    Eu não entendia na época e com o tempo, passei a entender melhor, pois sempre que alguem se machucava, eu tentava consertar o que tinha feito de "errado". Entre aspas mesmo, pois na maioria das vezes eu não sabia o que acontecia.
    (...)

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    Respostas
    1. (...)
      Chegou um ponto que para mim, se matar tinha se tornado uam ideia egoísta e covarde. Egoísta por dar um fim a tudo aquilo que haviam lutado pelo meu bem, e covarde por não encarara a dura realidade.

      A vida é dura. E são esses desafios que nos fazem ser quem somos e como somos. E das duas uma: Ou mergulhamos num eterno lamento, ou encaramos de frente.

      Solidarizo muito com sua questão. Por que sei de perto como é isso tudo. Mas os demais? Perdi chances de emprego, gurias e não sei mais o que por causa disso. Os rótulos que me deram no IPUB e fora dele, mais me fecharam portas do que abriram. Afinal, saúde mental não é algo prioritário por aqui (nem em muitos paises). por isso temos lugares como Japão e Suécia com índices alarmantes de trsntornos mentais e perda de vidas, mesmo lá tendo IDHs altos. O ideal é se preservar. Continuar a lutar, e pedir ajuda para quem você confia.
      Alais uam coisa interessante. Esse tipo de problema, ou até doença por assim dizer, está muitas vezes ligado ao fato do paciente ter uam inteligência acima da média. Winston Churchill e Elvis Presley tinham diagnostícos que hoje, sabemos que se trava de bipolaridade.

      Então, olhe bem tudo que já contruiu e se pergunte, "sera que a maioria das pessoas faria algo assim?" A resposta é não. Vivemos numa guerra constante dentro de nós que nos moldou para desafios maiores. Não escolhemos esse caminho, mas aprendemos a trilhar sobre ele.

      Você é muito forte, mas parece esquecer disso. Acabe com seu doutorado não por orgulho, ou por bolsa. Mas por que você é tão ou mais capaz que qualquer um que for lá na banca te avaliar. Seja humilde e grato. Um dia, esses fantasmas que nos assombram, nos darão férias e assim conseguiremos aproveitar a cor do céu azul, nos dias mais nublados de inverno.

      Uma braço, amigo. Você não está só!

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  3. Com certeza vc não está so. Milhões de pessoas podem estar se sentindo como vc agora. Depressão e o mal do século. O aspecto materialista e mto mais valorizado na nossa sociedade do q quem realmente somos. Os valores espirituais, filosóficos, que realmente importam, não são valorizados. A vida e mto mais q isso q nos apresentam. Estamos em mundo de ilusões, mtos estao inconscientes, dormindo.. não se culpe. Alimenta tua alma. Que tal filosofia?

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